1. Introdução
Mais conhecida nos EUA como Health and Wealth Gospel (Evangelho da saúde e da opulência)[1] a teologia da prosperidade ensina a prática da afirmação positiva, por meio da qual, depois da oração de fé e oferta de sacrifício (não segundo as posses, mas muito além delas), o crente recebe saúde e prosperidade material nunca vista antes.
Edir Macedo, um dos instrumentos pelos quais a teologia da prosperidade ganhou força no Brasil afirma: “já vivemos a pregação protestante com Lutero, a [pregação] avivalista com João Wesley e agora temos que sair da mera pregação carismática para a pregação plena”[2]. A ‘pregação plena’ é a referência à mensagem de que o homem deve desfrutar da prosperidade material e busca-la com intensidade através da fé – que não passa de pensamento positivo – e do autosacrifício – principalmente financeiro.
Ela nasceu nos EUA nos anos 40, se desenvolveu rapidamente e foi disseminada por todos os lugares inclusive para o Brasil no contexto da efervescência sócio-econômica possibilitando uma adaptabilidade rápida. Foi gerada a partir de estudos sincréticos e misturada à Escritura – para se ter legitimidade religiosa.
Trás em seu bojo doutrinas desfiguradas e distorcidas quando comparadas às defendidas pela fé tradicional. Enfatiza a riqueza – física e material - como elemento principal o qual todo cristão verdadeiro deve buscar. A capacidade de dar além do que possui constitui-se em fé autêntica na perspectiva dos defensores dessa teologia.
O propósito deste trabalho é sublinhar a historicidade da teologia da prosperidade, alguns dos seus argumentos e muitas de suas implicações para a concepção cristã genuína. Apresentar-se-á brevemente o “outro evangelho” nascido sob a tutela da pós-modernidade e far-se-á um a comparação em relação a essa “nova doutrina” e a ensinada pelas Escrituras. O intuito é mostrar o quão distante tal doutrina e concepção cristã estão do evangelho verdadeiro. Que o trabalho possa cumprir o seu desígnio!
2. Teologia da prosperidade: o “outro evangelho” pós-moderno
A “Teologia da prosperidade” ou a “confissão positiva” nasceu nos EUA entre os anos 40 e 70 a partir das inclinações ideológicas geradas sob os impulsos das experiências de Keneth Hagin[3] e de sua influência científica adquirida de Kenyon[4], Quimby[5] e Eddy[6]. Ela pode ser definida como uma “combinação sincrética de distintas tradições religiosas - ocidentais e orientais -, práticas esotéricas e paramédicas que deixaram marcas indeléveis neste movimento religioso”.
Hagin, movido por supostas experiências extraordinárias, funda seu próprio ministério baseado em visões, profecias, revelações e, depois, funda um centro de formação de discípulos e líderes com o fim de propagar a sua corrente teológica. É interessante notar que a ênfase de Hagin até então se concentra na cura divina. Depois, com Oral Roberts, televangelista carismático, pregando à massa acerca da “vida abundante”, a questão da prosperidade material é enfatizada como sendo um dos fatores pelos quais se evidenciava a verdadeira espiritualidade.
A nova perspectiva teológica foi disseminada por todos os lugares numa rapidez nunca vista por conta do poder de alcance da mídia. A TV foi e continua sendo o meio pelo qual a teologia da prosperidade se insere na cosmovisão popular de forma consciente ou inconsciente. Tal corrente teológica distorce os ensinamentos bíblicos e promove uma motivação egoísta. A ênfase demasiada no Bem-estar terreno como fim principal da vida cristã é explicitamente antibíblica.
Os defensores dessa teologia afirmam que os cristãos têm o poder de trazer a existência para o bem e para o mal aquilo que decretam. É a teoria da Confissão positiva. Aquilo que se confessa, decreta, determina, com fé resoluta e sincera, torna-se a própria palavra de Deus. Podem-se alterar realidades através da palavra proferida com fé. Podem-se concretizar perspectivas através da declaração verbal. Tudo que se refere ao bem estar do cristão do ponto de vista material pode ser adquirido através da determinação verbal com “fé”, isto é, pensamento positivo.
Essa é uma crença absorvida do esoterismo, da auto-ajuda e misturada a textos bíblicos para tentar dar legitimidade cristã. Os livros de Lair Ribeiro estão cheios de “reprogramação neurolinguística” tal qual na teologia da prosperidade. O sincretismo é óbvio.
As justificativas que eles utilizam quando a declaração verbal não surte efeito são diversificadas. Geralmente se põe a culpa no diabo. Mas, a falta de fé, o pecado e o diabo compõem o tripé das desculpas. Eles distorceram textos bíblicos para acomodarem às suas perspectivas ideológicas. É o caso da interpretação que fazem de Mateus 17.20. Enfatizam o termo “poderão dizer” ou “direis a”. Eles supervalorizam no texto o poder da palavra e não a fé.
Uma outra afirmação distorcida dos defensores dessa teologia é que a expiação de Cristo liberta o homem das maldições da lei mosaica. É distorcida não pela afirmação em si, mas pelo significado estranho dessa afirmação. Eles definem as maldições da lei mosaica como as enfermidades, pobreza e morte espiritual. O que implica no fato de que a saúde física e a riqueza material estão disponíveis para todos nesta vida e o cristão tem que mostrar o seu distintivo através da prosperidade na terra. A obtenção do Bem-estar material é prova de que o cristão é verdadeiramente cristão. Se ele foi liberto verdadeiramente ele é próspero. É a lógica de tal sistema doutrinário.
Nesse sentido os cristãos têm “direitos” adquiridos por meio do sacrifício de Cristo e precisa usufruí-los através de sua determinação verbal movida pela fé. Em outros termos, eles precisam ter o pensamento positivo acerca do que declarar. Tal declaração na verdade é uma exigência, uma reivindicação do que “já está garantido” pelo sacrifício de Cristo.
O dízimo e as ofertas são, na perspectiva dessa teologia, instrumentos pelos quais os cristãos demonstram fé autêntica. Usando termos como: “tem que dar para receber” e “Deus honra quando há sacrifícios” os líderes induzem os fiéis a doarem tudo que tem e até mesmo o que não tem para a igreja. Quando não há a doação ou a entrega dos dízimos e ofertas o “cristão” é tido como incrédulo.
A riqueza está à disposição do cristão porque Cristo o libertou da maldição da lei. A riqueza só pode ser desfrutada por meio da “obediência” em relação aos dízimos e ofertas. A riqueza só pode ser desfrutada quando se oferta sacrificialmente. Tais premissas levam a crer que a obra de Cristo é insignificante em comparação à oferta sacrificial do crente. O sistema teológico da confissão positiva minimiza de todas as formas Cristo e a relevância de sua expiação. A contribuição financeira baseada na declaração verbal e do pensamento positivo são os métodos básicos da teologia da prosperidade. É por isso que a linguagem dessas igrejas é de “fazer desafios”, “fazer provas de fé” e “sacrifício” se utilizando de meios absurdos para a concretização desse fim.
A criatividade é uma marca dos defensores dessa teologia na prática. Inventam e inovam a cada dia métodos concretos – vassoura ungida, óleo ungido, rosa santa, lâmpada brilhante, etc. - para arrecadarem fundos e cumprir suas metas à custa da fé ou da pseudofé dos incultos.
A prosperidade, a riqueza, Deus, a expiação de Cristo, dízimos e ofertas, a motivação essencial do cristão, tudo isso é distorcido e moldado à luz dos pressupostos da Confissão positiva.
Ver-se-á no próximo tópico o que a Escritura afirma sobre algumas implicações geradas pela teologia da prosperidade.
3. Implicações teológicas e práticas da teologia da Prosperidade à luz das Escrituras
As implicações das afirmações da teologia da prosperidade são explícitas e, à luz das Escrituras, inconcebíveis.
· A soberania divina é reduzida a nada, pois o homem é o próprio deus quando ‘faz acontecer’ através do que decreta. Ou seja, os decretos do homem impelem a ação divina;
· O homem é irresponsabilizado, pois o diabo é a causa de todos os males;
· O diabo é magnificado por ter um controle que a bíblia não o dá.
· A perspectiva de Deus para o homem como descrita na bíblia é invertida. A ênfase é no bem estar do homem e não na glória de Deus acima do conforto humano. O homem, na teologia da prosperidade, ganha uma supremacia que a bíblia não o dá.
· O ego do homem é divinizado. Tudo que o homem sempre quis foi satisfazer suas vontades. Nos nossos tempos em que o consumismo é massificado e que o “ter” é mais importante que o “ser” a teologia da prosperidade legitimou a ambição dos “cristãos”. Pode-se dizer que houve uma divinização da cobiça.
· O propósito dos dízimos e ofertas foi vituperado.
Essas são algumas das implicações geradas a partir da teologia da prosperidade. Houve uma inversão de valores e uma distorção teológica graves. A Cristologia e Antropologia ficaram irreconhecíveis. Deus perdeu a sua soberania para o homem, o novo deus, que decreta com poder e autoridade. Cristo precisa ser complementado pela ação poderosa do homem. Ele, nessa teologia defasada e demoníaca, não passa de alguém que abre a porta para que o homem exerça sua divindade. A motivação do homem em relação ao reino e a Deus foi transviada. A perspectiva dos cristãos que aderem a essa teologia é de “glória na terra” e não de “carregar a cada dia a cruz”. E o pior, a teologia da glória na terra é impulsionada pelo coração corrupto, materialista e consumista.
As Escrituras sagradas nos falam que o propósito principal pelo qual cristo morreu foi, fundamentado no amor misericordioso de Deus, salvar os seus eleitos da condenação eterna e dar gratuitamente a vida eterna. A garantia que a expiação de Cristo nos dá tem relação exclusiva com a eternidade e não com as circunstâncias temporais. Não significa que Deus não tem o controle sobre as nossas vidas nos mínimos detalhes, mas que o cristão é vulnerável as circunstâncias da vida. Ele é vulnerável à pobreza e a doença. Ou seja, sua salvação é garantida, mas sua situação econômica e física pode variar.
A relação do cristão com a prosperidade e as riquezas é biblicamente incompatível com a perspectiva da Confissão positiva. A teologia da prosperidade afirma que a riqueza é o fim pelo qual o cristão deve viver nessa terra; a Escritura afirma que “não adianta ganhar o mundo inteiro e perder a alma”. Jesus diz: “Quão difícil é para aqueles que possuem muitos bens ingressarem no reino de Deus”[7]. E no sermão do monte ele afirma: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou será leal a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamon”[8].
Tais textos foram citados para mostrar que a atitude de Jesus em relação ao dinheiro, mais enfaticamente ao amor exacerbado ao dinheiro, era de hostilidade. A hostilidade de Jesus aos que colocavam o dinheiro acima de tudo era tanta que ele, de forma didática, personificou o dinheiro e sublinhou-o como o deus preferido dos ambiciosos. E ele mostrou a impossibilidade dos que tem muito dinheiro de entrarem no Reino. Não apenas pelo fato de terem dinheiro, mas por amá-lo acima de tudo e vê-lo como a raiz de toda a felicidade. Ou seja, Jesus nos instrui acerca da nossa relação com a riqueza e nos adverte acerca do perigo de divinizá-la.
As Escrituras não é contra os ricos e a favor dos pobres. Ela não afirma que a pobreza ou a riqueza são sinais de espiritualidade. Ela aponta a motivação do homem como a mola mestra da verdadeira espiritualidade. Tiago em sua carta afirma que o cristão deve exercer sua espiritualidade incircustancialmente. Ele afirma acerca dos pobres e dos ricos no contexto da perseguição que: “o irmão de condição humilde –o pobre - deve gloriar-se em sua dignidade. O irmão rico deve orgulhar-se em sua insignificância...”[9].
Isso demonstra que o que a bíblia considera não são os dígitos da conta bancária de alguém para detectar verdadeira espiritualidade, mas a motivação pela qual o homem se dispõe ao reino e a Deus. A teologia da prosperidade ou confissão positiva é instrumento demoníaco para a adoração de Mamon. Incute na mentalidade das pessoas uma motivação consumista, materialista, egoísta e individualista. Ela troca os valores. O que importa em sua perspectiva é a busca pelos pães multiplicados a qual Jesus deu bronca; o que importa em sua visão é o enriquecimento material em detrimento da ética consistente; e, finalmente, o que importa em sua ótica é “demonização” da humildade verdadeira em detrimento da divinização da cobiça.
A teologia da prosperidade é antibíblica. Suas premissas são materialistas e seu enfoque antropológico. Seus resultados são catastróficos. E, espera-se que o seu tempo de vida seja curto.
4. Considerações finais
A teologia da prosperidade é relativamente nova, mas suas doutrinas têm moldado a perspectiva religiosa das pessoas nas últimas décadas.
Basta uma breve analisada e se percebe a falta de fundamento sólido para a confecção dessa teologia. Ela tem o propósito de dar significado religioso para as pessoas no contexto da industrialização e capitalismo, mas para isso, destrói as grandes doutrinas bíblicas. Sua existência é um enorme castelo de areia.
Seu nascimento, seu desenvolvimento e sua disseminação ocorreram de forma rápida e tem produzido, também, uma mentalidade imediatista. Os grandes líderes extorquem das pessoas até mesmo o que não tem e ordenam ao sacrifício, mas desfrutam sem misericórdia das finanças ofertadas. Eles são movidos por ganância e ambição. Fazem de tudo para tomar o lugar de Deus, até mesmo fomentar na mentalidade das pessoas a autodivinização.
De acordo com Willians (1994)
Crer nessa nefasta teologia que transforma a oferta em instrumento não de gratidão, adoração e construção do reino de Deus, mas de longa vida e privilégios materiais, é deturpar gravemente, em plena consciência ou não, o verdadeiro culto e o verdadeiro evangelho. Além de não corresponder à verdade bíblica e histórica, a teologia da prosperidade, no final das contas, cria um ninho de cristãos materialistas e mundanos (grifo meu).
Esse é o resultado gerado pela teologia da prosperidade: “cristãos” movidos pelo vil metal. Pessoas que inescrupulosamente anseiam e buscam pelo conforto nessa terra, de qualquer maneira e sob qualquer meio.
A teologia da prosperidade é uma “salada de frutas” adaptada para os clientes a fim de fazê-los aptos para a competitividade do mundo materialista e consumista. Com o propósito de auxiliá-los na terra os priva do céu, pois os priva da verdadeira mensagem de salvação. Deus, Cristo, a salvação, o valor expiatório, a gratidão pela oferta financeira, a humildade incircunstancial; todos esses valores imprescindíveis são reduzidos a nada.
Que se enxerguem a anatemabilidade desse sistema doutrinário, pois não passa de um “outro evangelho”.
Sola Gratia - Pr. Josguimar Amaral
5. Referências Bibliográficas
WILLIANS, Theodore. Ninho de cristãos materialistas. Ultimato, Viçosa, n° 226, p.13, jan. 1994.
CÈSAR, Elben M. Lenz. História da evangelização do Brasil: Dos Jesuítas aos neopentecostais. Viçosa: Ultimato, 2000.
ANTONIAZZI, Alberto; FRESTON, Paul et al. Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes. 1994, p.136.
[1] CÈSAR, Elben M. Lenz. História da evangelização do Brasil: Dos Jesuítas aos neopentecostais. Viçosa: Ultimato, 2000.
[2] ANTONIAZZI, Alberto; FRESTON, Paul et al. Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes. 1994, p.136.
[3] Evangelista batista que movido por questões doutrinárias tornou-se pastor assembleiano e ficou conhecido por difundir o movimento da Confissão Positiva que enfatiza a cura divina e a prosperidade.
[4] Essek William Kenyon foi um pastor batista carismático, radialista gospel, que foi influenciado pelos estudos de Quimby sobre seitas metafísicas e que, por sua vez, influenciou grandemente Hagin.
[5] Phineas Quimby foi um estudioso que desenvolveu a sua filosofia do “Novo Pensamento” a partir do ocultismo, esoterismo, parapsicologia, espiritismo, hipnose. Ele é conhecido por curar Mary Baker através de seus métodos.
[6] A fundadora da Ciência Cristã.
[7] Mc 10. 23
[8] Mt 6. 24
[9] Tg 1.9,10

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