Calvário Reflexões: Reflexões teologicas e filosóficas sobre a vida

" O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno".

William Shakespeare


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Discernindo entre Religiosismo e Cristianismo

Introdução
Observa-se que a maioria esmagadora das pessoas não-cristãs que tem uma aversão à igreja, aos cristãos e ao evangelho, ou a qualquer tipo de organização institucional religiosa, argumenta de diversas formas o porquê não vai, gosta ou não vê necessidade de fazer parte dessas instituições.
    Há muitas razões. Um dos argumentos se refere às decepções ocasionadas no contato com religiosos. É quando alguém se decepciona com o comportamento ético dos que se dizem religiosos no ambiente de trabalho, no lar, na sociedade e, a partir disso, decide que não quer ser como tal religioso e afirma que “pra ser como ele não é necessário ir à igreja”. Outros argumentam que não vão à Igreja por que “não trabalham para sustentar pastor”. Já outros dizem que não querem ficar “neurótico ou fanático” como fulano que prega aos berros no ponto de ônibus e ignora as necessidades do seu lar.
   Muitos ainda afirmam que não vão à igreja por que eles não querem fazer parte do grupo do “não pode”. E outros dizem que “ainda sou muito jovem e tenho muito para curtir” como se a igreja fosse algo associado com o que é opressivo. Outros dizem que fazer parte da igreja e de cristianismo é “sepultar a razão” como se o cristianismo e a Igreja fossem coisas de ignorantes. Por fim, muitos afirmam que igreja e cristianismo são bons para “os fracassados emocionais e desesperados psíquicos”.
   Percebe-se que as razões supracitadas são apenas ramificações da percepção das pessoas em relação ao religiosismo exercido por aqueles que se dizem cristãos. Ou seja, eles têm esses argumentos por que observaram o Religiosismo e não o Cristianismo. 
Transição
Precisamos ter o discernimento para perceber o que é o religiosismo e o que é o Cristianismo. Precisamos ter o discernimento, ter a percepção correta acerca do que é o cristianismo verdadeiro  e o que é apenas manifestação religiosa. Precisamos ter a capacidade de perceber entre os dois por que podemos correr o risco de ser instrumentos do religiosismo e não do cristianismo. O religiosismo traz conseqüências graves em longo prazo e o cristianismo causa liberdade e responsabilidade conscientes. É esse discernimento que Jesus nos mostra no texto em questão.
Exposição do Texto
O contexto nos mostra que Jesus foi convidado para festejar a nova vida de Levi ou Mateus. Depois de ouvir o convite de Jesus para segui-lo ele se dispôs imediatamente e fez uma festa para comemorar a nova vida chamando seus amigos publicanos. Mateus era um coletor de impostos, um publicano. E por isso, era odiado e desprezado pelos religiosos. Tais religiosos o tratavam com aversão por que ele cobrava imposto por Roma. Ele era funcionário do governo romano e trabalhava cobrando imposto de Israel. Isso deixava o povo e os religiosos revoltados. Os publicanos eram, na perspectiva deles, os piores pecadores.
   A Ira dos religiosos se acendeu mais intensamente quando estes viram Jesus e seus discípulos “comerem e beberem” com tais ‘pecadores’. Aquela comemoração era considerada uma ofensa grave contra os princípios que eles defendiam na sociedade. E as perguntas que fizeram demonstravam o quanto eles estavam indignados e prontos a obterem as justificativas do Mestre que dizia seguir as Escrituras. Eles primeiramente perguntaram: “porque comeis e bebeis com  publicanos e pecadores?” e depois afirmaram talvez num tom de superioridade religiosa: “Os discípulos de João e bem assim os dos fariseus frequentemente jejuam e fazem orações; os teus, entretanto, comem e bebem”.  É como se eles tivessem dizendo: “João e nós, fariseus, somos melhores do que você”. 
   O interessante é que eles ignoraram João Batista e agora olham para sua atitude acética em relação à alimentação e sua dureza com os pecadores confundindo e comparando a atitude de João com a Ignorância deles  a fim de diminuir o modo como Jesus tratava os pecadores. Em outro lugar o mesmo Jesus condenou essa mentalidade mesquinha e religiosa dos fariseus afirmando: “Pois veio João, que não comia nem bebia, e dizem: Tem demônio! Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!”.
   A resposta que Jesus dá aos fariseus pode ser resumida da seguinte forma: O cristianismo proporciona vida nova às pessoas enquanto o religiosismo proporciona prejuízos graves.  Eis aí alguns prejuízos graves que o Religiosismo proporciona para a sociedade:

1. O Religiosismo faz com que haja uma mentalidade aceptiva em relação às pessoas
2. O Religiosismo faz com que haja um ofuscamento da verdadeira mensagem
3. O Religiosismo faz com que haja uma supervalorização do supérfluo em detrimento do essencial
4. O Religiosismo faz com que haja uma compreensão distorcida acerca dos propósitos divinos   
5. O Religiosismo faz com que haja um  desperdício daquilo que se pode desfrutar da graça
6. O Religiosismo faz com que haja um desordenamento comportamental
7. O Religiosismo faz com que haja uma confiança exacerbada nas obras        



      
Conclusão
O religiosismo é um remendo na vida das pessoas. Só traz prejuízos. Assim como não dá para remendar pano novo em roupa velha por que não se pode rasgar roupa nova para remendar roupa velha – é loucura e insensatez -  e a roupa velha não suporta por muito tempo por conta da deterioração e corrupção da roupa velha. É uma analogia interessante de Jesus que mostra que a mensagem que ele trazia  - as boas novas – não poderia caber nos princípios religiosos dos fariseus. Haveria prejuízos tanto na pureza do evangelho quanto no comportamento dos religiosos. Eles só seriam ainda mais religiosos com doutrinas novas.
   O religiosismo é um paliativo na vida das pessoas.  De alguma forma tenta suprir as necessidades básicas das pessoas e ajustar os desequilíbrios, mas tem ação paliativa. Dá jeito por um tempo naquilo que é sintoma, mas o câncer está crescendo progressivamente. A febre foi inibida, mas a doença original está adormecida. O religiosismo é como colocar “band aid” numa fratura exposta.  Talvez tenha boas intenções, mas não é aproveitável.
   O religiosismo é totalmente diferente do Cristianismo. O Cristianismo proporciona vida nova e o religiosismo é destrutível. O Cristianismo valoriza as pessoas e põe as coisas no seu devido lugar enquanto o religiosismo troca os valores. O Cristianismo dá liberdade enquanto o religiosismo promove a discórdia e a prisão.  O cristianismo promove o “amor a Deus sob todas as coisas e o amor ao próximo como a nós mesmos” e o religiosismo incentiva a acepção, a intolerância, a autoconfiança, um automerecimento, uma distorção.  
   Precisamos discernir entre o Religiosismo e o Cristianismo para que mostremos, de fato, o verdadeiro cristianismo.   
                                                                           Pr.Josguimar Amaral

Depravação Total: o “Homem excremento”



Um dos equívocos que provocam uma aversão à crença na eleição divina é a idéia de que o homem é capaz de alguma coisa. Os homens se iludem ao pensar que são merecedores de algum tipo de benefício divino por conta de sua bondade e moralidade exercidos. A raiz dessa crença distorcida atual é a incompreensão, para não dizer ignorância, em relação à queda e suas conseqüências.
   Pensa-se que apesar da queda no Éden, explicitada no Gênesis, provocar conseqüências desastrosas não afetou totalmente o homem, principalmente no ponto de vista de sua decisão livre em escolher entre o bem espiritual ou o mal. Isso é um grave equívoco. O homem foi afetado desgraçadamente e impossibilitado de, por si mesmo, alcançar salvação eterna. O que implica em uma condição desesperadora e desesperançosa.
    A queda afetou o homem em todas as áreas. A sua vontade não se inclina para o bem espiritual, mas para a satisfação de seus desejos. O coração é o rei de suas decisões. O homem depois da queda é o “homem excremento”. Ele é podre. E, a realidade nua e crua descrita pela Bíblia é que tudo que ele toca, faz, pensa desagrada a Deus, ainda que cause benefícios sociais. Ainda que suas boas obras e sua moralidade atinjam o âmbito social ela não chega agradável aos olhos de Deus. O que esse ‘homem excremento’ oferece a Deus é contaminado. Não é puro e nunca pode ser puro se depender daquilo que sai dele. Tudo que toca vira excremento. Sua mentalidade é egoísta e idólatra. Aquilo que oferece a Deus em momentos aparentemente cúlticos e religiosos não passam de um autoendeusamento. 
   É impossível que esse homem alcance a salvação tendo como fundamento aquilo que ele faz por merecer. Alguns afirmam diante dos desafios da vida: “por que comigo Senhor? Eu não mereço!”. Há arraigado na mentalidade humana esse senso de merecimento. Essa idéia de que por que não temos sido “tão maus” merecemos o bem de Deus.  A bíblia nos retrata como depravados, escravos, condenados, mortos, cegos e tolos. Será que com todas essas qualificações temos ‘capacidade’ de merecer alguma coisa de Deus? Não merecemos nada.  Outros argumentam: “e a fé e o arrependimento? Não são atos nossos e, por isso, passamos a merecer a salvação?”. A resposta é não. A fé e o arrependimento são dons concedidos gratuitamente e eletivamente a quem ele quer. Esses dois elementos são o meio pelo qual a salvação é recebida e não o motivo pelo qual a salvação é alcançada.  A fé e o arrependimento são as mãos que recebem a salvação e não o preço que paga.
    Somos incapazes de merecer algo de Deus. Não podemos barganhar a graça divina. Somos, sem Cristo, “homens excrementos” que serão lançados no lixão eterno.   
Pr.Josguimar

Sobre Atos [ Lucas 1.1-4; Atos 1.1-5]

                                                     

A. Sobre o autor
Para uma visão panorâmica acerca do evangelho e seu resultado prático no decorrer da história é imprescindível que se leiam atentamente os dois livros do evangelista Lucas: Seu evangelho e Atos. 
   Lucas era um médico culto, grego, que acompanhou o apóstolo Paulo em algumas de suas viagens absorvendo, nesse estágio, uma visão mais clara e consistente do cristianismo. Morou na palestina durante, pelo menos, dois anos. Fato que o oportunizou a investigar acuradamente a história acerca de Jesus com o fim de esclarecer os seus conterrâneos a respeito da fé que eles já tinham aderido. 
   Lucas provavelmente já tinha lido alguns escritos que tratavam desse assunto, mas resolveu, com seu instinto científico, apurar minuciosamente os fatos. Procurou saber dos eventos históricos tendo como preocupação ouvir atenciosamente as testemunhas oculares e observar as literaturas que tratavam do tema. Apesar do fato de ter ouvido e crido no evangelho não hesitou em esclarecê-lo tendo como base sua pesquisa de campo.
    Os eruditos modernos confirmam a veracidade histórica de Lucas/Atos e elogiam o conhecimento contextual do evangelista Lucas. 
B. Sobre os objetivos         
Os propósitos pelos quais Lucas escreveu sua obra eram: i) Expor a história do cristianismo da forma como nasceu e seu desenvolvimento no processo histórico sob a ótica ‘científica’; ii) Sublinhar a intenção e ação divina em relação aos gentios; iii) Explicitar verdades essenciais do cristianismo contra as heresias insurgentes consolidando a fé dos cristãos gentios ao mesmo tempo em que os previne das mentiras capciosas.
    Lucas tinha o objetivo de mostrar que a fé que era propagada não nasceu da imaginação humana, mas era resultado de fatos salvíficos interligados ocorridos no âmbito histórico e que podiam ser comprovados quando analisados. Mas, seu objetivo nas era apenas histórico.
   Ele visava mostrar a grandeza dos propósitos divinos em estender o reino às nações. O reino evangélico não estava limitado a Israel, mas era propósito atingir todas as nações indiscriminadamente tendo como  elemento essencial a fé no Cristo que realizou definitivamente a obra salvífica.  Além de explicitar a inofensividade, a inocência e a legalidade do cristianismo do ponto de vista romano.
   Também, tinha como fim, enfatizar a verdadeira teologia da salvação em contraste ao que era proposto pelos fariseus convertidos. A tônica da salvação era a suficiência de  Cristo contra a possibilidade e a necessidade de complementação de tal salvação por meio de obras  defendida pelos judaizantes cristãos. 
C. Sobre suas perspectivas      
Um dos aspectos que se percebe em Lucas é a sua diplomacia. Ele defende a inofensividade do cristianismo diante do Estado. Ele se propõe a mostrar os lideres romanos sendo favoráveis ao cristianismo como prova de quão inofensivo e não-subversivo em relação ao Estado ele era. Além de inofensivo, o cristianismo era inocente. Não se encontrava provas para validar as acusações levantadas pelos perseguidores do cristianismo. E, além de inofensivo e inocente, era legal do ponto de vista das leis romanas. Ele era considerado uma religião lícita, por isso, inegavelmente legal.  
    Todo esse conjunto de provas era para mostrar diplomaticamente que o cristianismo e o Estado podem conviver harmonicamente. Sua diplomacia atinge não  apenas o âmbito externo, mas interno das relações do cristianismo. Em Atos se explicita a tentativa bem sucedida de Lucas de mostrar a coerência e unidade da liderança cristã, principalmente nas figuras de Pedro e Paulo.
   Quando se percebe a relação de Paulo e Pedro em Atos parece haver um contraste doutrinário. Há quem diga que havia dois tipos de cristianismo: uma versão petrina e outra paulina. Era a batalha entre o petrinismo e o paulinismo. Mas, isso é invenção de mentes imaginativas. Pois, não existem provas que corroboram tal tese.
   Crê-se em divergências circunstanciais, mas que foram consertadas. O fato é que Lucas sublinha a unidade de pensamento entre a liderança da igreja. Uma harmonia sublime. O exemplo claro é o capítulo 15. 
   Uma outra perspectiva que se observa em atos é a histórico-teológica.  Lucas não se contenta em apenas contar a história e defender o cristianismo do rótulo de subversivo ante ao Estado, mas deixar claro a sua convicção teológica, ainda que implicitamente. Na verdade a perspectiva teológica foi base para a construção do texto ao mesmo tempo em que os fatos do texto fundamentaram sua convicção teológica. A história e a teologia em Lucas caminham juntas.
   No evangelho ele mostra a salvação cumprida e em Atos revela a salvação proclamada. A tônica do evangelista é a salvação. Uma salvação que vem sendo preparada por Deus há muito tempo; uma salvação que é dada por meio de Cristo; e, finalmente uma salvação que quer atingir uma escala universal – no sentido de que tem o propósito de atingir todas as nações.
    Percebe-se, portanto, a imprescindibilidade da leitura de Lucas/Atos por conta de sua relevância no âmbito da  pós-modernidade. Ela trata de assuntos em voga como: Igreja e Estado; Discriminação e racismo; Liberdade cristã; Questões sobre o espírito Santo; Essencialidade da fé cristã; desenvolvimento histórico da Igreja.
   Em Atos há variedade de assuntos que podem ser abordados: Pneumatologia, Eclesiologia, Cristologia e Ética. Leiamos e desfrutemos de tão rica sabedoria e história.
D. Sobre o ponto principal
É interessante observar os dois volumes da obra de Lucas na Bíblia – Evangelho segundo Lucas e Atos - não como geralmente se percebe, a saber, a história de Jesus Cristo e a História da Igreja de Jesus Cristo.  A ótica deve ser a seguinte: o primeiro livro é o relato de todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, até o dia em que ascendeu aos céus e no segundo livro é o relato de tudo que Jesus continuou a fazer e ensinar após a sua ascensão – através dos apóstolos movidos pelo Espírito Santo. No primeiro livro Lucas trata do ministério terreno de Jesus e no segundo livro trata do celestial.  Portanto, o  ponto principal de Atos é: as realizações de Jesus do ponto de vista do seu ministério celestial. 
E. Sobre o capítulo 1.1
No verso 1 Lucas relembra ao seu leitor Teófilo o conteúdo da primeira carta que enviou sobre o ministério terreno de Jesus. Percebe-se que a ênfase está naquilo que Cristo realizou e falou. Aprende-se que deve haver total coesão no que pensa e diz e no que se faz.
    Há teorias a respeito do Teófilo de Lucas. Há quem pense que era a designação geral  do leitor cristão haja vista que Theophilos significa “amigo de Deus” ou “querido de Deus”. Outros são da opinião de que tal designação é um pseudônimo referente ao sobrinho do Imperador Vespasiano, a saber, Tito Flávio Clemente. Porém, a maioria esmagadora defende que Teófilo é o nome de um dos amigos de Lucas que tinha uma posição de autoridade na sociedade. Este nobre homem havia aceitado o evangelho e Lucas resolveu suprir-lhe com um relato ordenado e digno de confiança acerca do cristianismo. 
Algumas lições importantes:
  1. A preocupação de Lucas era  proporcionar: instrução, crescimento, solidez, enlarguecimento da fé;
  • Lucas foi um instrumento para o progresso dos outros;
  • Lucas se doou à serviço da estabilidade do próximo;
  • A estabilidade do próximo, na perspectiva Lucana, é a firmeza na verdade;
  1. A ‘obra’ de Jesus concilia realização – no sentido de obras, feitos - e ensino – comunicação da verdade;
  • Aquilo que se faz não tem forças se contraria aquilo que se afirma; aquilo que se afirma é ininteligível se não condizer com o que se faz.
  • O ‘Fazer’ e o ‘Falar’ devem ser os dois remos inseparáveis do cristão inserido no imenso mar da vida;

F. Sobre Atos 1.2
Depois do martírio de Cristo e de um breve momento em que os religiosos riam e celebravam a morte e sofrimento do ‘herege’ que, na mentalidade deles, estava tentando destruir a religião estatal e a harmonia covarde entre Israel e Roma, e em que os seguidores de Cristo estavam desesperançosos e tristes, a promessa feita alguns dias se cumpre e o filho do Homem ressuscita poderosamente.  Jesus realizou obras extraordinárias e ensinou autoritativamente depois da ressurreição até que ascendeu aos céus.
   O verso 2 enfatiza a ascensão de Jesus, a urgência de seu ensinamento, a atuação do Espírito Santo e o comissionamento dos discípulos.
   A ascensão era necessária para que de outra forma cumprisse seu ministério. Até então seu ministério era terreno, depois da ascensão seu ministério é celestial. Em outros termos, Jesus ainda é atuante na Igreja. Ele comanda sua Igreja do céu.  Ele habita em cada cristão verdadeiro. E suas realizações continuam.
   A urgência de seu ensinamento se dá por conta do fato de que aqueles que ele havia escolhido seriam os instrumentos pelos quais o Senhor continuaria sua obra e, para isso, deveriam estar atentos ao direcionamento de Cristo. 
     

O homem que deixou Jesus admirado

A admiração é uma sensação que ocorre quando algo nos chama atenção. Geralmente é algo que sai da normalidade. É algo extraordinário. Há muitas coisas que nos causam admiração.
    A excelência do jogador de futebol manifestada pelos dribles e principalmente pelos belos gols. A bondade e honestidade das pessoas que, por sinal, são exceções nesse mundo corrupto e que deveria ser normalidade. Pode-se ficar admirado também quando uma ação maldosa e ignorante acontece. Quem não se admira quando uma mãe joga, sem pena nem senso de culpa, seu recém nascido no lixo por mero capricho? Ou quando a violência se manifesta inescrupulosamente?
   Quando observamos os evangelhos percebemos dois momentos em que Jesus fica admirado. No primeiro momento ele se admira com a incredulidade dos que deveriam recebê-lo com braços abertos, mas recusam-se a reconhecê-lo Messias. Ele fica admirado com o fato de que os que esperavam ansiosamente pela vinda de um Messias que governaria com excelência e era prometido pelas Escrituras Sagradas não enxergaram nele a Messianidade.  Ele já tinha se apresentado aos judeus e declarado que a promessa de Deus por meio de Isaías de que o Messias viria estava sendo concretizada nele. Ele já tinha respondido o questionamento do próprio João Batista sobre se ele era de fato o Cristo que viria. A incredulidade dos judeus o deixara tristemente admirado.
   Mas houve um homem que deixou Jesus positivamente admirado. E ele não era judeu. Era romano. Era uma das maiores autoridades da cidade de Cafarnaum por ser subtenente da polícia romana. Ele era um centurião. Alguém que tinha autoridade sobre 100 soldados. Ele era um homem rico e influente. Tinha escravos. Era considerado na cidade a ponto de líderes religiosos locais intervirem a seu favor.
   Um dos seus criados estava à beira da morte e o centurião ouvindo falar acerca da autoridade de Jesus nas obras que fazia e no modo que falava resolveu pedir seu auxilio. Enviou alguns líderes religiosos para pedirem a Jesus que restaurasse a saúde do seu criado. Jesus atendeu ao pedido do centurião e se dispôs a ir a casa dele. Foi surpreendido por um grupo de amigos do centurião que o encontrou no meio da estrada dizendo que bastava apenas uma palavra mesmo à distância para que o moço fosse curado. O grupo afirmou que o centurião não se achava digno de receber tão grande autoridade em sua casa.
   É nesse momento que Jesus se surpreende com as atitudes do centurião romano e o elogia diante do povo que deveria ter as mesmas atitudes sendo este o povo da promessa.
   Observam-se algumas lições acerca das atitudes que deixaram Jesus surpreso e alegre.
A)    Uma mentalidade que ignora a autojustificação e se mostra grata em ser dependente.
   Uma das maiores dificuldades do ser humano é ver-se livre do orgulho e da soberba que enche seu coração. De todas as maneiras ele tenta se justificar. De muitas formas ele se enxerga bom, justo e merecedor de todo bem.  Basta observar as atitudes daqueles que passam por dificuldades. Há um questionamento acerca do porque aquilo está acontecendo com eles. Esse questionamento pressupõe a idéia de que ele não merece passar por dificuldades, pois tem sido bom e justo. Uns até dizem: “eu não tenho feito nada errado!”, “eu tenho sido honesto”, “aqueles que merecem passar por isso não passam”. Essa é uma mentalidade que demonstra um tipo de autojustificação e automerecimento. E isso é uma característica de quem é religioso.
   O centurião se mostra desprovido dessa mentalidade enquanto os religiosos a explicita. A atitude dos religiosos quando se achegam a Jesus é sublinhar as qualificações do centurião. Eles fazem o pedido a Jesus tendo em vista as obras que o centurião realizou e sua índole. Ele era autoridade na cidade; contribuinte financeiro em prol da construção dos templos; reconhecido pela sua bondade em ajudar as instituições e as pessoas; amoroso e cuidadoso com as pessoas ao seu redor – até mesmo com seus escravos; era um homem digno de receber assistência privilegiada de Deus – isso na mentalidade religiosa.
    Porém, as atitudes do centurião foram totalmente contrastantes. Os religiosos o acharam digno da assistência de Jesus e o centurião se achava indigno de receber Jesus em sua casa. O apelo do centurião não foi pelo seu bem-estar, mas para a estabilidade física de seu escravo. Ele se achava indigno até mesmo de se achegar a Jesus. Ele era um exímio conhecedor acerca de autoridade e submissão. Em relação a Jesus ele cria que uma palavra do mestre, mesmo à distância, faria o resultado esperado. Essa afirmativa implica na fé de que Jesus tem autoridade sobre todas as coisas: materiais e imateriais.
    Eis aí um homem que deixou Jesus admirado. Por sua mentalidade de que era imerecedor da assistência de Jesus, mas dependia de sua intervenção. Era uma dependência, também, assistencial. Pois não dependia da intervenção divina para si mesmo, mas para seu criado. Continua...

Quando a prosperidade é instrumento da punição divina

O ser humano se bestifica rapidamente com a possibilidade de poder e conquista. Quando se trata de conquistas que satisfazem os anseios do ego o homem se lança em caminhos minados, ignorando o perigo iminente de morte ou aleijamento, para usufruir o poder e domínio daquilo que por ele, de forma adulterada, foi conquistado.
   A misericórdia divina se mostra quando há advertências diversas acerca da mudança de mentalidade e de rumo. É evidenciada pelo despertamento da consciência acerca da condição errada em que o homem se encontra. A misericórdia divina se mostra com a tentativa de abrir os olhos por meio da sabedoria da palavra com o propósito de fazer com que o ímpio enxergue seus maus caminhos e as possíveis conseqüências desastrosas que o esperam. Deus é um Deus misericordioso e compassivo. Mas, não se pode ignorar que a ira justa de Deus se manifesta sobre os que praticam a iniqüidade. E uma das formas de Deus punir é permitir e até mesmo conceber a  prosperidade que o ímpio deseja. É permitir que o iníquo se farte da iniqüidade.
   Em Provérbios 1. 31 Salomão afirma que os que caminham distante da orientação de Deus de forma obstinada: “... comerão do fruto do seu próprio caminho, e fartar-se-ão dos seus próprios conselhos”. No verso 32 ele diz que “a prosperidade dos loucos os destruirá” e “a sua impressão de bem-estar os leva à perdição”. Em Romanos capítulo 1 versos 24, 26 e 28 Paulo afirma que: “Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração” e “entregou-os às paixões infames” e “o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes”. Em outros termos, em sua soberania Deus julga e pune os que contrariam a sua vontade fazendo-os prosperar nos anseios do seu coração absurdamente corrupto.  Deus os faz transbordar de apego à iniqüidade e pecaminosidade para que a queda seja extremamente dolorosa. Ele deixa o homem se exacerbar nos desejos mais torpes da alma e prosperar em seus planos corrompidos de forma a sentir contentamento e conforto fazendo disso meio pelo qual a punição é concretizada.
   A responsabilidade é totalmente do homem em “acumular ira para o dia da Ira (Rm 2.5)” segundo as ordenanças prazerosas e confortáveis  do seu soberano eu. Deus apenas dá corda para que os anseios enganosos do coração humano sejam efetivados e com isso, punidos.
   Deus se revela com o propósito de fazer com que o homem veja sua condição deplorável e caia em si. Ele mostra a depravação da condição humana para que o indivíduo se submeta às suas vontades e renuncie aos desejos que, experiencialmente, tem conduzido à perdição. Contudo, quando as diversas manifestações da misericórdia divina não são absorvidas e respondidas, Deus usa como instrumento de justiça, a própria prosperidade dos que andam distante de sua palavra.  
   Prosperidade que só é prosperidade do ponto de vista do pecador. Prosperidade que não é, de fato, prosperidade. É o progresso no mal.
                                                                                                               Pr.JosguimarAmaral

Graças à graça!

É inacreditável o quanto precisamos de disposição demasiada para crescermos na graça do conhecimento de Deus e no serviço do Reino. Se não houver anseio ardente, disposição incessante, resolução sincera e convicta acerca da própria necessidade e urgência de progresso no âmbito espiritual corre-se o risco de se encaixar no perfil dos medíocres espirituais.
   O fazendeiro não deixaria a sua fazenda “à migué” por que sabe que se não plantar não colhe e se não arar a terra e lançar sementes os abrolhos e urtigas crescem no lugar que deveria ser de plantações produtivas e nutritivas. Assim ocorre nos campos espirituais dos corações dos cristãos. Se não houver a plantação necessária e a disposição urgente não haverá crescimento desejado. É por isso que existem meninos no entendimento. São pessoas que são salvas e crentes, mas não cresceram como deveriam crescer. Não progridem e nem produzem.
   Para fazer o que é ruim tem-se total disposição.  A Explicação é que a natureza pecaminosa já é habituada a exercer sua malignidade. Mas, para cumprir os desígnios de Deus, que por sinal, contrariam as mais profundas e superficiais inclinações naturais do homem, a luta deve ser entendida e encarada. Há uma batalha travada entre pôr a vontade de Deus no trono do nosso coração ou pôr as nossas vontades. Quando nos submetemos às nossas vontades subversivas somos acusados de idolatria; quando nos submetemos à vontade de Deus somos chamados de obedientes e fiéis.
   O ponto é que deve haver o reconhecimento de que há uma luta e de que devemos lutar com todas as nossas forças para progredirmos nessa batalha. O mal não dá trégua nunca. Por que descansaríamos na batalha? É lógico que não se deve entender que a nossa disposição por si só vence a batalha ou nos proporciona progresso. Até mesmo as nossas disposições em prol do reino e da Justiça são resultados da graça manifestada que impulsiona o nosso ser para mais perto de Deus. “Posso todas as coisas naquele que me fortalece” é a ênfase de uma vida vitoriosa e próspera. “Por que dEle, por meio dEle e para Ele são todas as coisas” é o grito dos que saem com espadas e escudos. 
   A graça irresistível de Deus nos leva a ficar incomodados com a acomodação. A graça irresistível de Deus nos orienta e nos fortalece; enche-nos de disposição santa para completarmos a carreira. A graça põe fogo em nossa alma quando a chama está se apagando e nos faz conscientes de que é preciso usar mais algum tipo de elemento inflamável; a graça nos sacia com sua água pura quando há um desejo de jogarmos a toalha.
   Perseveremos! Progridamos! Cresçamos! Com o anseio ardente de ver a glória de Deus manifestada constantemente no rosto das pessoas impactadas pelo brilho de Cristo e pela justiça do reino.  Graças à Deus por sua maravilhosa graça.
                                                                          Pr. Josguimar Amaral     Sola Gratia
           

A Justificação justa do injusto pelo Deus Justíssimo

A condição do homem sem Deus é terrível. Ele é totalmente depravado e está, desde já, em um estado de condenação. É escravo do pecado, absolutamente vulnerável às influências ideológicas do mundo, prisioneiro de satanás, manipulado por suas próprias cobiças e a pior de todas as características, a saber, alvo específico da justa ira de Deus.
   O homem é impotente em relação à escolha entre o céu e o inferno. Ele é livre, em certa medida, no ambiente corrupto em que vive. O que pode significar que tem a liberdade de escolher entre o tipo de pecado que comete ou de que maneira desagradar a Deus. Mas, no estado em que se encontra não pode nem ao menos desejar as coisas de Deus ou ofertar algo a Deus sem que tal oferta ou desejo esteja contaminado com o excremento da própria natureza humana caída.  Em outros termos, tudo que o ‘homem sem Deus’ diz ofertar ao senhor, ainda que seja social e aparentemente belo e desfrutável não pode agradar a Deus.
   Diante do diagnóstico preciso da condição humana sublinhado por Deus através das Santas Escrituras a pergunta que surge é uma só: Qual a saída para esse homem? Ele se encontra morto e num beco sem saída. Ele não é ninguém. Ele está numa prisão à espera da pena de morte já decretada. Ele está com câncer e por isso, nas últimas. Ele vive como se nunca fosse morrer, mas não sabe que já está morto. Ele é um zumbi e pensa que é herói. Qual a saída para esse louco? O que ele pode fazer? Nada. Nada que se encontra no homem é capaz de livrá-lo da condenação e da ira. Nada que se encontra no homem é suficiente para satisfazer aquilo que seu credor exige para que viva. Ele não tem nada. Ele não é nada. Ele está morto e morto não toma decisão alguma. O máximo que ele pode fazer é observar algumas leis ou até mesmo diversas leis, mas é insuficiente. Se depender dele mesmo não há saída e nunca haverá.
   A resposta para uma transformação radical na condição do homem descrito aqui é tão somente Deus. A saída para o homem preso e julgado e condenado à pena de morte é tão somente a junção do Amor do Pai e a justiça do juiz. Deus evidencia seu amor e sua justiça no episódio em que seu único filho se entregou expiatoriamente no lugar do ímpio. Ele evidencia seu amor pelo fato de ter enviado seu filho para morrer de forma trágica e cruel para que o perdido fosse livre da ira que lhe era devida. A amostra de sua justiça ocorre concomitantemente pelo fato de que quando seu filho morreu ao receber sobre a sua cabeça a ira houve plena satisfação daquilo que era exigido pelo justo Juiz que resulta na declaração que o culpado é por isso, justo. Ele se ofereceu em nosso favor e Deus Pai aceitou de bom grado.  A ira que seria derramada na cabeça de todos, cristo a recebeu no lugar dos eleitos de Deus.
   O cristão só é cristão por causa da graça misericordiosa do Deus Justíssimo que de forma justa justifica o injusto.
                                                             Pr. JosguimarAmaral    Doulos Ek Theon

A Imprescindível Auditoria da alma

Há uma necessidade de, constantemente, investigar as motivações que levam a alma a agir. Os resquícios da corruptibilidade ainda estão batalhando pelo trono. O orgulho, a soberba, as cobiças variadas, o automerecimento e autoconfiança estão adormecidos, mas ainda não morreram de fato. Aquilo que pode parecer justo e limpo na perspectiva do coração não passa de engano por conta do próprio caráter do coração enganoso. O conhecimento que se tem de bondade e justiça e que, na maioria das vezes, é fundamento para julgamento próprio não passa de uma epistemologia pútrida que conduz a visão distorcida de si mesmo. 
   Há uma necessidade de, constantemente, esquadrinhar as intenções mais profundas da alma. Se isso não for feito corre-se o risco de desfrutar uma tranqüilidade tola, burra até. Corre-se o risco de caminhar tranqüilo em terreno minado.
   Há uma necessidade de, minuciosamente, auditorar os anseios da alma. É preciso para isso um enlarguecimento da visão de si mesmo que não ocorre se, em primeira instância, não se veja Deus. É imprescindível que antes de o homem tentar perceber aquilo que precisa ser mudado nele mesmo tenha contato com uma luz que possa iluminar as densas trevas de sua alma. Se não houver uma aproximação com a luz divina não há e nunca haverá visibilidade. A auditoria, o esquadrinhamento, a investigação, a sondagem, só serão eficazes sob o esclarecimento divino.  Deus é o único capaz, por meio da sua palavra eterna, de mostrar para o homem a sua condição verdadeira. Sob a ótica humana o homem é o mais perfeito, justo, excelente, formidável, merecedor ser. Sob a ótica divina o homem não passa de pó e cinza.
   Há uma necessidade de, profundamente, buscar se achegar à majestade divina nas Escrituras Sagradas para que haja, além de um conhecimento verdadeiro de Deus, um conhecimento real de si mesmo. A aproximação do homem a Deus fará transformar o orgulho em dependência e a soberba em gratidão. O conhecimento temperado à intimidade resultará em uma conformidade do homem com a divindade. Auditoria só é auditoria quando se tem um padrão estabelecido pelo qual são medidas as qualificações de algo. O homem precisa ser medido não pelo que há em si mesmo, mas em um critério ou paradigma maior que ele. Da mesma forma o homem deve ser e só pode ser conhecido por um padrão maior que ele. A frase filosófica “conhece-te a ti mesmo” é vazia e incoerente se em primeiro lugar não houver um conhecimento de Deus. O homem nunca sente ou sentirá sua debilidade se antes não se vê frente à majestade de Deus (Calvino, Institutas, Cap. I, pg. 32).
   É imprescindível que haja um aprofundamento do conhecimento de Deus, um enlarguecimento da perspectiva acerca de seus atributos inefáveis para que uma auditoria eficaz e consistente seja feita cotidianamente até a eternidade.
                                                                             Pr.Josguimar Amaral     Doulos Ek Theon

A vulnerabilidade humana e a Graça Divina

Parece impossível sair desse mundo de trevas que habita no nosso coração. Parece que os ratos do porão de nossa alma se proliferam e os vírus se propagam a cada dia. São, ás vezes, invisíveis a inclinação para o mal e as inclinações deturpadoras e desregradas da vontade. Parece que estamos em um beco sem saída. Não há forças e nem potencial dentro do próprio homem para inibir ou coibir as ações devastadoras dos insetos e animais ferozes de nossa alma.
   Como vencer tais inclinações devastadoras? Como não se contaminar com tal vírus destruidor? Como extrair de vez a soda cáustica que corrói a alma? Como não se embaraçar com as teias traiçoeiras do pecado letal que nos amarram para a morte?
   São perguntas feitas por uma vontade dividida. São questionamentos levantados como resultado das violações inegociáveis do terrorista da alma. São tentativas de compreender e explicar a dualidade das inclinações e a duplicidade das decisões que a alma enfrenta. São despedaçamentos fragmentários de dúvidas que foram gerados por uma detonação da dinamite por mãos do pecado aterrorizador e inescrupuloso. São reflexões necessárias e desesperadas da alma que anseia por uma pureza profunda, uma faxina constante e um nojo prazeroso ou um prazer nojento quando em contato com as sujeiras podres e fétidas das imundícies que grudam no porão da alma.
   Por onde se olha se percebe frestas de luz ao longe e a escuridão tentando governar. Por onde se pisa há uma imensidão de minas terrestres prontas para explodir. Por onde se toca se suja com os excrementos espalhados por todos os lugares.  As rosas perfumadas são poucas e os espinhos são demasiadamente insuportáveis. A insaciabilidade humana é uma amostra dos estragos que as sanguessugas da alma promovem.    
   Quem poderá nos defender? Quem poderá nos purificar? Quem poderá nos compreender e ajudar? Quem poderá enxergar nossa fraqueza? Quem nos fortalecerá em nossa fragilidade? Quem poderá nos tirar do aprisionamento e da escravidão? Quem nos livrará das algemas do nosso ‘eu’? Quem nos arrancará do Mr. Hyde, habitante do porão de todas as almas e soberano impulsionador das decisões hedonistas e maniqueístas?
   A resposta para essas indagações desesperadas e/ou para os desesperos explicitados é humana e intelectualmente incompreensível. A resposta para essa manifestação e grito de socorro de toda a alma é uma loucura e um escândalo para a intelecção do pobre homem caído. A resposta é a graça manifestada por meio de Cristo Jesus  e adquirida por meio da fé provida soberana e monergísticamente na vida do homem. A resposta não está em nós e em nossos mais desesperados esforços, mas na graça de Deus revelada por meio de Cristo. A resposta é externa. É divina. A resposta é poderosa e eficaz. A resposta é esperançosa e libertária. A resposta é tranqüilizadora e apaziguadora. A resposta para a fragilidade e vulnerabilidade humanas é a graça. A graça que dá ao homem aquilo que ele não merecia receber e que não podia por si só ter. A graça que se revela no fato de que o filho de Deus se fez filho do homem para que o filho do homem pudesse se tornar filho de Deus. A graça que destrói de forma ilógica o governo dos ‘Hydes’ e dos soberanos ‘eus’. A graça que justifica o injusto de forma divinamente justa. A graça que arromba o beco que era sem saída e proporciona visibilidade de um mundo melhor. A graça que faz do ambiente escuro, ‘resplandescentemente’ claro. A graça que torna o automerecimento imposto pela natureza caída em gratidão  eterna e dependência absoluta.  A graça que transforma o homem que tem uma natureza de porco, desesperado por lama, em um lindo gato branco que pode até pisar na lama, mas sente-se enojado. A graça que arranca as teias de aranha e ilumina o porão. A graça que faz uma faxina  completa e neutraliza os efeitos do vírus maléfico e letal.  A graça que é irresistivelmente gratuita.
   A vulnerabilidade desesperadora e insaciável só pode ser vencida e inibida pela graça. Depois da graça a corrupção, depravação, insanidade da alma, insaciabilidade por excrementos ideológicos e espirituais, escuridão, escravidão, a mentalidade autorealizadora, a idéia de automerecimento, a perspectiva de ganhar o mundo inteiro; tudo isso e muito mais, são destronados, mas não plenamente destruídos. A alma deixa de ser escrava, mas as podridões de outrora insistem em sentar no trono. As algemas são destruídas, mas os restos dos Hydes tentam colocá-las e soldá-las com mais força novamente.
    Fomos salvos e livres, mas não nos tornamos impecáveis ou anjos. Um resto de vulnerabilidade tenta nos corroer. Um resto de depravação tenta nos escravizar. Grãos de soda cáustica podem nos infectar. Somos definitivamente salvos, mas estamos progressivamente santos. Estamos com a vida no reino, mas estamos com os pés no pó da terra. O que faremos? A resposta é a graça que nos livrou e nos santifica. A graça que nos lavou definitivamente, mas lança seu jato de água pura todos os dias para que os nossos pés sejam limpos.   
   O remédio para a vulnerabilidade humana, que escraviza antes da conversão e assedia depois da conversão, é a graça divina.
                                                                                             Pr. JosguimarAmaral     Sole Deo Gloria